Entre Bordeaux, Düsseldorf, Verona, Paris e São Paulo, o mapa das grandes feiras internacionais do vinho mudou. Mais do que números, mudou a lógica de participação, o perfil dos encontros e a forma como o setor busca eficiência, imagem e mercado.
Por Waleska Schumacher, Haia – Países Baixos
Há mais de 30 anos acompanho feiras de vinho. Vi de perto salões locais em Bento Gonçalves, vivi a força internacional da antiga Vinexpo Bordeaux, acompanhei o profissionalismo rigoroso da ProWein Düsseldorf, observei a permanência da Vinitaly e, nos últimos anos, testemunhei a ascensão inequívoca da Wine Paris. Ao olhar essa trajetória, a impressão é clara: as feiras não mudaram apenas de endereço, escala ou público. Mudaram porque o próprio mundo do vinho mudou.
Durante muito tempo, as grandes feiras foram a vitrine máxima do setor. Eram o lugar onde se consolidava prestígio, se marcava presença e se media, de certa forma, a relevância de uma vinícola, de um importador ou de um país produtor. Havia ali um forte componente de representação institucional. Estar na feira certa significava existir no mapa internacional do vinho.
Hoje, essa lógica se tornou mais complexa. As feiras continuam centrais, mas já não funcionam apenas como palco de visibilidade. Tornaram-se plataformas de decisão comercial mais seletivas, de encontros mais qualificados e, sobretudo, de escolhas estratégicas. Nem todas as vinícolas podem estar em todos os lugares. Nem todas as feiras oferecem o mesmo retorno. E o custo de participar passou a pesar como nunca.

Essa foi uma das percepções mais consistentes nas conversas que reuni para este artigo. Jack Metsemakers, da Mosae Vini, importador na Holanda especializado em vinhos italianos de perfil mais autêntico, observa que a Vinitaly 2026 não apresentou uma grande ruptura de formato. Segundo ele, a feira manteve um movimento semelhante ao de anos anteriores. O dado oficial confirma sua robustez: a edição de 2026 reuniu 4 mil empresas e 90 mil participantes, com 26% de presença internacional, vindos de 135 países.

Mas o ponto mais interessante trazido por Jack não está no tamanho da feira, e sim no comportamento das vinícolas. Algumas deixaram de investir em estandes próprios e passaram a se posicionar dentro das áreas de consórcios e denominações de origem, como no caso de zonas muito visitadas do Vêneto. Outras, simplesmente, decidiram não participar. A razão é objetiva: o custo de presença, para muitas empresas, já não se sustenta sozinho. O que se percebe é uma tendência crescente a estandes compartilhados, ações coletivas e formatos cooperados, capazes de reduzir despesas sem perder visibilidade.

A fala de Rosana Pasini, da The Forties, reforça, por outro ângulo, esse mesmo momento de transição. Depois de 16 anos de presença na ProWein, 2026 foi o primeiro ano em que ela decidiu não participar da feira alemã, concentrando seus esforços, junto às vinícolas que representa, na Wine Paris. Para ela, Paris ofereceu uma experiência altamente produtiva, com excelente qualidade de participantes e presença importante de compradores brasileiros.
Os números ajudam a explicar essa percepção. A Wine Paris 2026 registrou 63.541 visitantes profissionais de 169 países, 6.537 expositores e 25.958 reuniões agendadas. O evento se apresenta hoje, oficialmente, como um hub internacional cada vez mais central para o comércio global de vinhos e destilados.

A ascensão de Paris não acontece por acaso. Há um contexto histórico importante. A Wine Paris se fortaleceu dentro da reorganização do setor francês de feiras e da própria trajetória da Vinexpo. A história oficial da Vinexposium mostra que essa tradição nasce em Bordeaux, em 1981, e ganha novo desenho quando, em 2020, a Vinexpo e a divisão de vinhos da Comexposium unem forças sob uma mesma estrutura. Em outras palavras, a força simbólica de Bordeaux não desapareceu, ela foi redistribuída, em parte, para um novo centro de gravidade, mais conectado, mais acessível e mais atraente para o mercado internacional.
E aqui entra um ponto decisivo da minha própria observação. Paris não oferece apenas uma feira. Oferece conectividade aérea, maior oferta de hospedagem, mais apelo cultural, mais opções gastronômicas e uma atmosfera que favorece a permanência dos participantes. Para quem sai da América do Sul, por exemplo, chegar a Paris é incomparavelmente mais simples do que chegar a Düsseldorf. Esse fator logístico, que à primeira vista poderia parecer periférico, tornou-se central. O custo total de uma feira não termina no metro quadrado do estande. Ele inclui passagens, hotel, deslocamentos, alimentação e toda a estrutura externa necessária para tornar a presença viável.

Düsseldorf sentiu isso de forma clara. A ProWein 2026 teve 3.400 expositores de 63 países e 31 mil visitantes profissionais de 105 nações, números abaixo do ano anterior, dentro de um movimento reconhecido pela própria organização como uma reorientação estratégica. Ao mesmo tempo, a Messe Düsseldorf enfatizou algo relevante: menos volume não significou necessariamente menos qualidade. O foco passou a ser encontros mais eficientes, compradores mais direcionados e maior capacidade de decisão comercial.
Essa leitura também aparece na declaração de Rafael Romagna, do Wines of Brazil. Para o projeto, ProWein e Wine Paris cumprem hoje funções complementares. Düsseldorf mostrou maior força na construção de imagem e relacionamento, enquanto Paris se destacou pelo dinamismo das negociações. Juntas, as duas feiras revelam um setor em transformação, com maior curadoria de compradores, mais seletividade e busca crescente por eficiência comercial.

Talvez esse seja o ponto mais importante dessa mudança. As feiras deixaram de ser apenas grandes vitrines globais e caminham para se tornar plataformas mais segmentadas, mais orientadas a matchmaking e mais exigentes em retorno. O setor parece menos disposto a sustentar estruturas caras sem resultado concreto. O glamour continua existindo, mas já não basta.
Isso não significa que as feiras tradicionais perderam sua relevância. A Vinitaly continua essencial para quem atua com vinho italiano. A ProWein mantém um peso estratégico, especialmente para mercados como Alemanha, Benelux, Escandinávia e Europa Central. A Wine Paris consolidou-se como protagonista em expansão. E, paralelamente, feiras regionais e novos polos ganham importância. No Brasil, a ProWine São Paulo vem se afirmando como um ponto de encontro cada vez mais relevante para o trade nacional, o que merece observação atenta nos próximos anos.
Depois de tantas edições visitadas, a conclusão a que chego é simples: as feiras continuam sendo espelhos do setor, mas espelhos mais nítidos do que antes. Elas revelam onde está o dinheiro, onde está a energia, onde está o discurso e onde ainda há futuro. Mudaram os corredores, os idiomas predominantes, os fluxos de compradores e a geografia do interesse. Mudou também a forma de ocupar esses espaços. Hoje, participar de uma feira internacional já não é apenas uma demonstração de presença. É uma decisão estratégica.

Também acredito que as feiras de vinho, mais do que momentos para encontrar novos importadores e projetar mercados, tornaram-se espaços fundamentais de networking e convivência profissional. E não deixam de ser, também, ocasiões em que a alegria se revela, já que muitos reencontram amigos e parceiros do mundo inteiro. Mas, certamente, as feiras serão cada vez mais orientadas pela experiência, porque os negócios hoje também podem ser conduzidos à distância, com toda a tecnologia de que dispomos. Projetar mercados, identificar clientes e abrir canais já não depende exclusivamente da presença física. Justamente por isso, os encontros presenciais passam a valer ainda mais quando oferecem densidade, vínculo, repertório e experiência.
Outra tendência que marca fortemente as feiras é a criação de áreas especiais e propostas temáticas capazes de atrair atenção qualificada e gerar novas vivências. A ProWein Düsseldorf, por exemplo, apresentou uma área dedicada exclusivamente aos vinhos espumantes, reforçando como o recorte por categoria pode criar valor, foco e experiência para o visitante profissional. Ao mesmo tempo, ganha força tudo aquilo que acontece fora dos pavilhões, em ações paralelas promovidas por expositores, associações e regiões produtoras. Um bom exemplo foi a soirée dos Crus Classés de Graves em parceria com a Champagne Laurent-Perrier, realizada em 10 de fevereiro de 2026 no Hôtel InterContinental, diante da Opéra Garnier, em Paris. Eventos como esse têm grande importância também no campo das relações públicas, porque criam um ambiente mais propício para conversas, trocas e aproximações que muitas vezes não acontecem no ritmo intenso dos pavilhões. Foi nesse contexto que tive a oportunidade de reencontrar Amanda Barnes, uma das vozes mais respeitadas do vinho sul-americano, crítica, jornalista e autora do South America Wine Guide. Nossa breve conversa sobre aspectos que ainda podem ser aprimorados na comunicação do vinho brasileiro mostrou, mais uma vez, como esses encontros ajudam a refletir, ajustar rotas e projetar novas ideias para o futuro.
E talvez seja justamente isso que torna este momento tão fascinante. Estamos assistindo não ao fim das grandes feiras do vinho, mas à sua reinvenção.
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