
A misteriosa lenda de Ratanabá, suposta cidade perdida nas profundezas da Amazônia, tem sido alvo de intensas buscas nos últimos anos. Integrantes da Idakila Pesquisas, liderados pelo empresário Urandir Fernandes, realizaram incursões em uma terra indígena em Mato Grosso, utilizando uma variedade de métodos como sobrevoos, expedições terrestres e aquáticas, drones e equipamentos de mapeamento. No entanto, especialistas e a Justiça Federal têm posições claras: Ratanabá é um mito, e essas expedições, realizadas sem o devido consentimento, foram proibidas.
A história de Ratanabá ganhou força nas redes sociais, mas a comunidade científica, representada por figuras como o arqueólogo Eduardo Góes Neves, professor da USP com mais de 30 anos de pesquisa na Amazônia, afirma categoricamente que não há qualquer evidência científica que sustente a existência de tal cidade. Segundo o grupo Idakila, Ratanabá seria a “primeira capital do mundo” e o “Império Central dos Muril”, uma civilização que supostamente teria chegado à Terra há 600 milhões de anos. Foi em busca desses vestígios que as expedições foram realizadas.
Justiça Proíbe Expedições e Multa Associação Idakila
A Associação Idakila, com sede em Corguinho (MS), foi proibida pela Justiça Federal de continuar suas atividades na Terra Indígena Kayabi, em Apiacás (MT). A decisão, que fixa multa de R$ 50 mil por flagrante, surge após anos de incursões que começaram em maio de 2022 e se estenderam até 2025. O Ministério Público Federal (MPF) destacou que essas atividades ocorriam sem a necessária autorização da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e das comunidades indígenas locais.
A linha do tempo apresentada pela Justiça Federal revela a persistência das ações: em 2022, os primeiros sobrevoos e incursões foram registrados; em 2023, as atividades continuaram; em 2024, um helicóptero chegou a pousar na Aldeia Mairowi; e em 2025, as incursões prosseguiram, culminando na determinação de suspensão pela Justiça em 2026.
Tecnologia a Serviço da Busca e da Invasão
As expedições da Idakila não se limitaram a sobrevoos. Documentos citados na decisão judicial descrevem incursões terrestres e aquáticas ao longo de quatro anos, com a instalação de equipamentos para registrar imagens e coletar informações. O uso de drones, voos rasos e tecnologias como o LiDAR – que utiliza pulsos de laser para mapear o terreno em 3D, revelando detalhes mesmo em áreas de mata densa – foram detalhados no processo. O objetivo, conforme os autos, era registrar “criaturas ou fenômenos” e monitorar a região.
Um dos episódios mais preocupantes envolveu câmeras encontradas nas proximidades da aldeia Boca do Rio das Tropas, no Pará, por lideranças Munduruku. Os equipamentos teriam registrado a rotina dos moradores, incluindo crianças, violando a privacidade e caracterizando monitoramento não autorizado. O pouso não autorizado de um helicóptero na Aldeia Mairowi, em agosto de 2024, também é citado como parte das atividades persistentes do grupo.
Impacto Cultural e Espiritual nas Comunidades Indígenas
A proibição judicial baseia-se na violação de direitos territoriais e culturais dos povos Munduruku, Kayabi e Apiaká. O juiz federal Marcel Queiroz Linhares enfatizou que o território indígena possui um significado cultural e espiritual profundo, não sendo apenas um espaço físico. “A permanência de sobrevoos, ingressos e monitoramentos sem autorização possui aptidão para causar dano continuado e de difícil reparação às comunidades indígenas”, ressaltou o magistrado, destacando que a proteção constitucional aos povos indígenas abrange sua organização social, costumes, crenças e tradições.
Lideranças indígenas relataram medo generalizado, “desarmonia espiritual, medo, doenças, morte, fuga de animais e desequilíbrio da flora e fauna” em locais considerados sagrados e associados a mundos invisíveis e espíritos de antepassados. Um laudo antropológico citado na decisão apontou possíveis danos culturais e espirituais, evidenciando que as buscas atingiram espaços sagrados onde, segundo as tradições, “não se pode mexer”.
O Que Determina a Justiça e a Posição da Idakila
A Justiça Federal determinou que a Idakila Pesquisas cesse imediatamente voos, pousos e incursões na Terra Indígena Kayabi e arredores, além de proibir pesquisas arqueológicas, mapeamentos por LiDAR e instalação de sensores ou câmeras. A divulgação de material coletado, especialmente com imagens de crianças indígenas, também foi interrompida. Em caso de descumprimento, a multa é de R$ 50 mil por flagrante, e aeronaves e equipamentos podem ser apreendidos. A Anac e o Decea foram comunicados para fiscalizar planos de voo.
Procurada pelo g1, a Idakila Pesquisas declarou que não foi formalmente citada ou intimada sobre a ação judicial e, portanto, não se manifestaria sobre o mérito da decisão. A associação afirmou que apresentará sua defesa nos autos assim que for formalmente notificada, reiterando respeito aos direitos indígenas, à legislação ambiental e à liberdade de imprensa. A entidade mencionou sua trajetória de mais de 25 anos e iniciativas filantrópicas, culturais e educacionais.
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