Aroldo Schultz analisa o turismo e IA


Em entrevista ao DIÁRIO, Aroldo Schultz, fundador e presidente do grupo, analisa setor e aponta as prioridades
Por Zaqueu Rodrigues – especial para o DIÁRIO

2026 é um ano muito importante para Aroldo Schultz. Ao celebrar os 40 anos de história no mercado de turismo, o empresário curitibano dá um importante passo ao unificar as suas empresas em Grupo Schultz, que congrega as marcas Schultz Vistos, Schultz Operadora, Schultz Portugal, Vital Card, TZ Seguros e TZ Systems – esta última congrega as unidades POTA e Wikitravel.

O executivo explica que a renovação é um reflexo natural de uma trajetória de crescimento, diversificação e visão estratégica. “Cada marca do Grupo Schultz representa um pilar fundamental na cadeia do turismo, e essa estrutura nos permite oferecer um ecossistema de soluções integradas e eficientes para nossos parceiros e clientes”.

O novo posicionamento das empresas como um grupo econômico, assegura ele, não interfere na operação individual de cada marca, que segue com capital, estratégia e investimentos próprios, atendendo ao setor de forma autônoma.

Aroldo aponta que a persistência e o entendimento de que a solidez é resultado de um processo foram fundamentais para chegar aos 40 anos como referência em um mercado tão disputado como é o de turismo. “Nada se constrói do dia para a noite”, ensina ele, que iniciou seus passos no setor por acaso, como office-boy. “O turismo é muito apaixonante. Quem entra nele não quer mais sair”.

Nesta entrevista exclusiva concedida ao DIÁRIO, Aroldo Schultz analisa o novo momento do mercado de viagem, refaz seus passos no setor, aponta as prioridades e crava: “Os problemas enfrentados pelo turismo brasileiro são semelhantes aos enfrentados pelo turismo global. O maior deles combina a escassez de informações confiáveis sobre os destinos e a falta de padronização dessas informações”.

Grupo Schultz 40 anos
Aroldo Schultz: ““Os problemas enfrentados pelo turismo brasileiro são semelhantes aos enfrentados pelo turismo global” (Crédito: Eric Afonso – DT)

DIÁRIO: O que o motivou a empreender no mercado de turismo?

Aroldo Schultz: Eu não decidi empreender no turismo. Foi o que apareceu na minha vida. Aos 16 anos eu fui convidado para ser office-boy. Fiquei 15 dias e fui promovido. E ali, na Brasil Sul Turismo, entrei no mercado. Depois fui trabalhar na empresa Oremar, onde desenvolvi o setor de vistos dentro da empresa.

Quando eu saí da empresa, comecei a receber muitos contatos em casa sobre vistos. Então a Triângulo Turismo me convidou para tirar vistos franceses em São Paulo. Daí em diante eu nunca mais parei. Ali eu comecei a empreender nesse mercado.

DIÁRIO: O Grupo Schultz chegou aos 40 anos. Quais foram as grandes conquistas do turismo nesse período?

Aroldo Schultz: O turismo evoluiu muito. A internet abriu fronteiras e permitiu que destinos desconhecidos fossem descobertos. A internet revolucionou a organização e facilitou muito o turismo. Hoje podemos pensar em um destino nacional ou internacional e alguma informação teremos. A informação, infelizmente, talvez não seja confiável. Temos que pesquisar muito para chegar ao destino. Quando eu comecei, tínhamos somente os guias impressos dos principais destinos.

Eu vejo muitos profissionais novos empreendendo no turismo. É preciso dar a capacidade adequada a esses profissionais. Vejo a entrada de gente com vontade de estar no turismo, mas despreparada. Antes de entrar no turismo é importante ter um curso básico. Não estou falando de faculdade e nem de um curso técnico, mas de um curso de pelo menos uns três meses para entender os riscos e consequências do mercado.

É um setor no qual as pessoas mais experientes ainda permanecem; outras o estão deixando e muitas estão entrando. O mercado está sendo renovado. O turismo é muito apaixonante. Quem entra nele não quer mais sair. Outros mercados podem remunerar mais, mas não dão tanto prazer quanto o de turismo. A gente precisa de gente com iniciativa.

Grupo Schultz 40 anos
Equipe Schultz: Fabiano Simm, Aroldo Schultz, Ana Maria Santana, Luciano Bonfim, Rodrigo Rodrigues e Rafael Turra ((Foto Cadu Nickel))

DIÁRIO – Quais os destinos prioritários do Grupo Schultz?

Aroldo Schultz – No Brasil, o Nordeste é muito forte. Maceió é um dos destinos que a gente mais vende. Fortaleza, Natal; Jalapão é sempre destaque; Curitiba, Foz do Iguaçu, Morretes e Antonina, no litoral do Paraná; também focamos muito na Serra Gaúcha, Gramado, Bento Gonçalves, Caxias do Sul; e interior de São Paulo.

Internacionalmente, Portugal, Espanha. Na Ásia estamos vendendo muito Japão. A América do Sul está tendo um destaque maior. Estamos vendendo muito bem Argentina, Chile, Peru, Colômbia.

DIÁRIO – Ao analisar esses 40 anos do Grupo Schultz, o que foi importante para chegar até aqui?

Aroldo Schultz: Eu sempre quis crescer, mas eu nunca imaginei que as nossas empresas fossem crescer tanto. A base desse crescimento sempre foi, sem dúvida, a seriedade do nosso trabalho. Sempre cumpri com meus deveres, sempre poupei e nunca esbanjei, e sempre tive a felicidade de ter uma boa equipe. A maioria está comigo há 10, 20, 30 anos. O meu crescimento deve-se às pessoas que me cercam, à persistência, à confiabilidade tanto de fornecedores quanto de agentes de viagens, e a acreditar em novos projetos, como eu estou acreditando agora no Wikitravel.

Grupo Schultz 40 anos
Aroldo faz selfie em sua última convenção (Crédito: arquivo DT)

DIÁRIO – A Wikitravel é uma plataforma de IA focada na integração do turismo?

Aroldo Schultz: A prioridade do Grupo Schultz é a organização. As nossas empresas cresceram. Criamos a holding, modernizamos as nossas marcas. Profissionais que estão comigo há bastante tempo agora são sócios. A minha missão agora é expandir o Wikitravel, que está com boas conquistas. Eu vejo que ele ainda tem muito para acontecer e esse vai ser o meu maior projeto. Ele não é só um projeto nacional, é global. O problema do turismo é global.

O Wikitravel está no começo. Estamos com licitação em algumas prefeituras e em processo de colocar nos estados. É um processo. A burocracia é muito grande, mas está caminhando. Dia após dia os estados e as cidades nos procuram. Como tudo aconteceu, esse projeto também está acontecendo.

O Wikitravel é um portal de inteligência artificial que permite que os destinos se organizem. Hoje, imagine que cada município tem o seu próprio site. É muito difícil as pessoas encontrarem esses sites. É igualmente difícil para a inteligência artificial. Eu fiz pesquisas em três IA’s, e elas me deram informações equivocadas porque não temos uma base de dados organizada no turismo.

Então, criamos essa base de dados Wikitravel para colocar fotos, vídeos e melhorar os textos. Com um login e senha, cada município pode atualizar os dados sobre o seu destino. A IA faz um apanhado de todas as atrações da cidade, e o município pode criar prioridades do que deseja promover e deixar atrações já desenvolvidas em outros níveis da solução. Ele está integrado com mapa, com IA para falar 11 idiomas, não só em texto quanto em áudio.

Acabamos de fazer uma parceria com a Abav Paraná. Todas as agências da Abav Paraná serão importadas dentro da Wikitravel. Criamos um concierge virtual para criar roteiros. No final ele pergunta se você quer o auxílio de um profissional. Tudo isso de graça para o agente de viagem. O lançamento será realizado durante a Expo Paraná.

No dia 15 de abril, às 19h, eu farei uma palestra sobre o tema dentro do Fórum da Anseditur, realizado na WTM Latin America 2026.

Grupo Schultz 40 anos
Participantes da Convenção Schultz, em Curitiba, no Paraná (divulgação)

DIÁRIO: A IA tem potencial para revolucionar o setor como a internet o fez?

Aroldo Schultz: A IA vem para contribuir, mas ela precisa ser bem alimentada com bases séries de informações corretas. O turista precisa ter dados confiáveis para ele se planejar. A IA não faz nada, só informa. Ela coleta dados, organiza e informa. Se não dermos dados decentes, a IA não vai informar. Hoje, no turismo brasileiro, a IA está perdida, não sabe onde procurar informações confiáveis. Não temos um banco de dados decente do turismo.

Eu fiz uma pergunta extremamente simples a três inteligências artificiais: Gemini, Copilot e ChatGPT. Perguntei: atue como especialista em turismo brasileiro e crie uma lista com as 10 cidades que mais receberam visitas no último ano por ordem de volume. Informe o site de turismo oficial da cidade. A resposta deve ser em formato de lista simples contendo apenas cidade, estado, URL do site de turismo da cidade, sem incluir instruções ou comentários, apenas a lista pronta para copiar. Um prompt extremamente simples, sem segredo nenhum.

Para a minha surpresa, as três IA’s deram informações diferentes, com a maioria dos sites apresentados que não funcionam. Em minha pesquisa por meio das IA’s, fiquei assustado. Aparecem sites corrompidos, desligados, desatualizados… Essas são as informações que a IA mostra ao mundo sobre o turismo do Brasil.

Aí eu pergunto: Como é que o nosso turismo vai se desenvolver se as nossas informações são tão bagunçadas? Nesse cenário, nem a inteligência artificial se acha, e não estamos falando de uma IA, mas de três.

Como é que vamos passar os 9 milhões de turistas? É vergonhoso. O turismo precisa ter organização e uma base de dados confiável.

Quase não há sites de turismo oficiais dos municípios. Quando tem, eu te pergunto: qual é o endereço? Qual é o endereço do site oficial do turismo de Curitiba? Qual é o endereço oficial da cidade de Gramado, de Recife, de Fortaleza? Não sabemos. Não temos uma fonte confiável.

Daí vem a nossa solução, o portal de inteligência artificial Wikitravel.

Grupo Schultz 40 anos
Aroldo Schultz, presidente da Schultz Operadora – WikiTravel e Fabiano Simm, Fabiano Simm, Co-CEO da TZ System Tecnologia, Na FITUR 2025 – Foto: Paulo Atzingen / DT

DIÁRIO – Como a Schultz está comemorando esses 40 anos e o que essa marca representa?

Aroldo Schultz: É uma data muito importante. Um dia seremos centenários. Estamos trabalhando para isso. Eu já estou preparando a minha próxima geração. A minha filha mais velha já está trabalhando comigo e a mais nova está estudando para isso.

Em comemoração aos 40 anos, o Grupo Schultz apresenta uma nova identidade visual para todas as suas marcas. A Schultz Operadora lançou a campanha “40 Ofertas”, oferecendo 40 promoções mensais e exclusivas ao longo de 2026. Neste 13 de abril, realizaremos um evento especial no restaurante Circolo Cucina, no Edifício Itália, reunindo 100 convidados às vésperas da WTM Latin America.

Este é um momento de agradecer a todos os funcionários que estão com a gente há tanto tempo e acreditando nesse trabalho. Afinal, fomos nós que fizemos e estamos fazendo tudo isso. O que é importante é que são 40 anos de solidez e com capacidade de investimento.

DIÁRIO – O que considera essencial para o desenvolvimento do turismo brasileiro?

Aroldo Schultz: Precisamos ter o básico. É fundamental que todo destino tenha um site, uma base de dados de fotos, vídeos, fazer a curadoria de seus monumentos para poder ensinar a IA a informar corretamente. Se cada município fizer isso, o Brasil se tornará o país que maior potencial tem de crescimento no mundo.

Nós temos a vantagem de ter tempo, beleza natural e o carinho das pessoas. Qual cidade brasileira que não gosta de receber bem o turista? No Brasil o turista é abraçado. O turismo brasileiro tem muito para crescer. Precisamos de uma política menos política e mais construtiva.

A viagem, mais do que nunca, é social. Ela desestressa inúmeras pessoas. Permite trazer rentabilidade e receita. O turismo amplia muitas portas e gera muitas oportunidades tanto nas cidades grandes quanto pequenas. Mas, para isso, o destino precisa mostrar o que ele tem.

Grupo Schultz 40 anos
“Nós temos a vantagem de ter tempo, beleza natural e o carinho das pessoas. Qual cidade brasileira que não gosta de receber bem o turista? No Brasil o turista é abraçado” (Crédito: Arquivo DT com técnica de Aquarela IA)

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