
Pessoa mexendo no celular
Reprodução/ RBS TV
Deslocar-se sem o Google Maps, deixar de deslizar o dedo no Instagram, guardar os fones de ouvido para ouvir o canto dos pássaros: durante um mês, um grupo de jovens americanos trocou seus smartphones por celulares mais simples e mergulhou em uma desintoxicação digital.
A iniciativa faz parte de um movimento emergente entre jovens que buscam se libertar dos efeitos prejudiciais das redes sociais.
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“Estava esperando o ônibus e não sabia quando chegaria”, lembrou Jay West, de 29 anos, que participou do desafio “Um mês offline”, organizado por uma pequena startup, com o apoio de um grupo comunitário local.
Antigos hábitos são difíceis de erradicar, e West — que trabalha como analista de dados para o sistema de metrô de Washington — comentou que frequentemente se flagrava enfiando a mão no bolso para pegar o celular, apesar de não tê-lo trazido consigo.
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Mas, ao final, a experiência se revelou libertadora, afirma.
“Às vezes me sentia entediado, e tudo bem!”, lembrou, em uma tarde recente, em uma horta comunitária da cidade, onde os participantes da experiência se reuniram para compartilhar as dificuldades e as alegrias de se desconectarem. “Tudo bem ficar entediado”, disse West.
Sentada ao seu lado estava Rachael Schultz, de 35 anos, que precisou pedir indicações a desconhecidos que passavam de bicicleta. Lizzie Benjamin, de 25 anos, tirou a poeira de antigos CDs que seu pai havia gravado para poder ouvir música sem recorrer ao Spotify.
Antes da desintoxicação, Bobby Loomis, de 25 anos, que trabalha no setor imobiliário, tinha dificuldades até mesmo para assistir a um episódio completo de uma série de TV sem checar o celular.
Vida social “enriquecedora”
Há tempos, cientistas alertam que a dependência de celulares está associada à menor capacidade de atenção, a problemas de sono e à ansiedade.
Em uma decisão histórica no fim de março, um tribunal da Califórnia entendeu que Instagram e YouTube são responsáveis pela natureza viciante de suas plataformas.
Um número crescente de jovens americanos está se dando conta disso.
Segundo pesquisa da YouGov realizada no ano passado, mais de dois terços das pessoas entre 18 e 29 anos gostariam de reduzir o tempo de uso de telas.
Há também novas ferramentas disponíveis: aplicativos, dispositivos para bloquear o aparelho e grupos — como o de Washington — que promovem a desintoxicação por um mês.
Nos campi universitários, popularizaram-se as “dietas” de redes sociais por várias semanas, e encontros sem telas entre amigos se tornaram tendência nas grandes cidades.
Prescindir do smartphone, ainda que por algumas semanas, leva a “maior bem-estar e melhor capacidade de manter a atenção”, afirmou Kostadin Kushlev, pesquisador de psicologia da Universidade de Georgetown.
Estudos preliminares sugerem que esses efeitos perduram ao longo do tempo, acrescentou.
Josh Morin, um dos organizadores dos programas de desintoxicação em Washington, considera que simplesmente deixar de usar o telefone não é suficiente e que é essencial oferecer uma alternativa atraente.
O programa inclui uma sessão semanal de debate para os participantes em um bar de karaokê localizado em um bairro movimentado da capital americana.
“Para romper realmente com esse hábito, é preciso oferecer uma vida social, comunitária e enriquecedora”, destacou Morin.
Adolescente com o celular em mãos
Divulgação
“O começo de algo importante”
A iniciativa “Um mês offline” foi lançada há um ano por um grupo comunitário e agora é administrada pela empresa Dumb.co.
Participar custa cerca de US$ 100 (aproximadamente R$ 500) por pessoa, valor que cobre o empréstimo de um celular antigo pré-carregado com ferramentas essenciais — para chamadas telefônicas, mensagens de texto e o aplicativo Uber —, sincronizadas com o smartphone do usuário.
Até agora, a startup avançou a passos lentos e espera superar a marca de mil participantes em maio. Mas especialistas vislumbram uma tendência mais ampla.
Graham Burnett, professor de história na Universidade de Princeton, acredita que o movimento pode estar no “amanhecer de um movimento autêntico”, semelhante ao surgimento da onda ecologista, na década de 1960, que levou a importantes leis de proteção ambiental.
Kendall Schrohe, de 23 anos, funcionária de uma organização de vigilância da privacidade digital, concluiu o programa de desintoxicação em Washington em janeiro.
Agora, ela consegue se orientar pelo bairro sem depender do Google Maps, eliminou a conta no Instagram e organizou o próprio grupo de “sobriedade digital”.
“Adotei uma perspectiva otimista e sinto que realmente estamos diante do começo de algo importante”, comentou.
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